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12/05/2008
VOX Quero agradecer muito a generosidade das pessoas que leram os posts do PinkPunk. Obrigada mesmo. Hoje quero dar uma dica bem rápida para quem estiver em SP. Pra quem estiver fora espero que sirva pra olhar para o circo com olhos diferentes como eu acabei olhando depois do que vou contar. No Memorial da América Latina tem um circo chamado VOX (http://www.circovox.com.br/) que é a coisa mais engraçada que eu já vi. Daqueles que você chora de rir. Pelo menos eu. Fui pra acompanhar Fernando que está estudando palhaços e palhaçadas e pra levar as crianças, minha filha e duas amigas. Eu mesma achava que era a minha boa ação do ano. Mas este VOX é muito diferente de tudo. Não tem animais, nem monstros, nem números que causam medo e vontade de fugir. Não tem também patrocínio e, nem por isso, custa caro. E é bem pequenininho, o que lhe dá um charme incomum. O espetáculo que eu vi tinha uma contorcionista muito interessante, mas não deixava você se sentindo mal e querendo desdobrar a moça. E três palhaços absolutamente engraçados que não dão chance a quem não quiser chorar de rir. O palhaço (que é também dono do circo) tem aquele humor com dose exata do politicamente incorreto que torna tudo fácil de entender e, ao mesmo tempo, muito esperto. O cabelo tipo juba de leão após um vendaval, por exemplo, começa ajudando. Só de ver você já é capturado pela piada. A outra, uma mocinha que se veste de faxineira e faz papel de boba, é hilária, como diz a minha amiga Betty Lago. Pra quem acha que não existe palhaça, eis o primeiro exemplo. O segundo exemplo é a dona do circo. Esta moça chega com sua bolsa dourada, um celular, um casado branco tipo poodle, óculos escuros e cabelo azul channel, conversando com a platéia que começa a rir sem opção. E, melhor parte do seu modo de fazer rir: ela vai explicando como funciona o equilibrismo e, no seu jeito excelente de fazer palhaçada, cria uma sensação de que engraçado mesmo é a vida. Como no equilibrismo, você pode errar e pode se machucar, mas com responsabilidade dá pra tentar e, no mínimo, rir muito. Parece que a moça não é outra coisa que o que ela está mostrando, que ela vive aquilo que mostra. Ela é magistral na arte de fazer palhaçada parecer séria e o contrário também. E, com isso, ajuda a entender como na vida tudo funciona de um jeito meio desengonçado. Viver é rir. Mas, sobretudo, saber rir r do que rir. Tantos, de Demócrito a Nietzsche já defenderam o riso e a alegria que nasce dele. Exercitar é sempre bom, mas entender que ele não está distante de nada do que vivemos no mais banal do nosso cotidiano é também essencial. O circo, e o riso que é o seu sangue, é como se fosse uma metáfora da vida. Para quem gosta de rir, ou pelo menos respeita o valor do riso, rir é terapêutico. Além de ajudar na serotonina diária a que todo mundo tem direito, rir faz bem aos melancólicos ao fazer ver que a vida tem dois lados. Isso cura aquela doença da alma a que se chama, na falta de expressão melhor, “crise existencial”. Coisa que adolescentes têm demais, mas que dá também em gente adulta. Além de terapêutico, o riso é uma libertação que cada um faz de si mesmo. Eu saí do VOX procurando o palhaço que mora em mim e que anda dormindo, talvez seja um jeito de brincar comigo. Chamei, chamei e ele não veio. Mas vou continuar esperando pra ver se ele aparece, senão não terei entendido nada da vida. Pra finalizar esta conversa rápida com um pensamento de Niezsche: não é sábio aquele que não aprendeu a rir de si mesmo. E isto nos põe também diante da medida das coisas sérias. Vamos pensando! |
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09/05/2008
VOLVER ![]() Volver de Pedro Almodóvar é dos melhores filmes pra se entender de mulheres, tanto na vida do lado de cá, quanto no cinema. Quando falamos de mulheres estamos sempre falando das imagens que são feitas delas, seja na história da arte, seja no cinema, seja na televisão. É a partir destas imagens que as pessoas, depois, construirão suas aparências reais. Imagens são modelos e não devemos esquecer disso antes de cair na magia do photoshop. Podemos, é claro, nos tornar suas vítimas ou aprender com elas. Também é óbvio que entre mulheres existem tantas diferenças que agrupá-las sob qualquer guarda-chuva – das mães, das tias, das histéricas, das dondocas, e as tantas outras - é muito difícil porque cada uma carrega um pouco da outra. Almodóvar, apesar disso, fez uma coisa notável com a imagem das mulheres espanholas que serve para cada mulher pensar em si mesma mesmo fora da Espanha. Para bom entendedor – ou entendedora – é claro que o filme fala por si, mas sempre é bom colocar uma lente de aumento em alguns aspectos. ![]() Diz uma amiga minha, de mãe e avó espanholas, que o filme chega a ser realista. Ela se reconheceu na história, desde a primeira cena a partir da qual o filme já se revela como muito forte tanto no conteúdo, quanto na forma. A primeira cena mostra Raymunda, a protagonista na pele de Penélope Cruz, a limpar os túmulos de seus familiares, pai e mãe, mortos num incêndio. Junto dela, sua irmã Sole e a filha Paula, adolescente. Daí em diante já se sabe que o assunto é morte e solidariedade feminina. E Almodóvar que maneja os atores, as ações e as cores como um grafiteiro em festa num brechó com uma cesta de frutas de plástico na mão (?) - imagem almodovariana que me vem à imaginação agora pra fazer pensar naquele estilo de toureiro a dançar com um touro antes de fugir com ele falando mal da multidão que não sabe ao que veio - não deixa virar um dramalhão tirânico, nem deixa a comédia tomar conta do cenário. Ele escolhe o limiar entre a tragédia e a comédia que é o melhor lugar para falar qualquer verdade sobre seres humanos, sobretudo mulheres. Por que a escolha? Porque, na vida real, elas podem ser mais bonitas, mais misteriosas, mais intrigantes, mais corajosas, mais decentes, e também mais terríveis, mais cruéis, mais apaixonadas, mais loucas que qualquer homem. Qualquer mulher dá um filme, porque qualquer mulher é sempre muito interessante, em si mesma exótica. Seria isto que o cineasta queria mostrar? É a primeira vez que, sem zombaria, se faz um desenho do feminino que não o transforma em colar de pérolas e corpos para propaganda de lingerie esperando um beijo de anfíbio gosmento enquanto choram a própria miséria. ![]() Não sabemos, mas é certo que, enquanto as mulheres são mostradas no filme em toda a sua dignidade, onde sobressai a capacidade de serem solidárias umas às outras, a imagem dos homens é a pior possível. As mulheres cuidam umas das outras nas coisas da vida e nas coisas da morte, protegem suas filhas, se vingam por elas, trabalham e se sustentam sem esperar nada de ninguém. Ao contrário de tanto que já se fez ao mostrarem mulheres sofrendo por amor, traindo umas às outras, fracas e miseráveis diante de seus homens, as mulheres de Almodóvar são fortes, mas isso não quer dizer que sejam heroínas. Elas apenas não dependem de homens. Os homens de Almodóvar, incapazes de nada, servos da própria covardia, ou já estão mortos, ou só querem sexo (como o pobre desempregado Paco que morreu assassinado pela filha que criou com Raymunda ao tentar estuprá-la, aliás, o filme guarda um segredo sobre isto) ou morrem como vítimas de sua falta de escrúpulos. O filme não lhes dá chance. Ao contrário. Mas também não trata as mulheres como suas vítimas ingênuas. Elas se erguem contra seus opressores (pai e marido) e - crueldade de Almodóvar - ficam sempre mais bonitas por isso. ![]() O filme que já saiu de cartaz e dá pra ver em DVD é de um feminismo dos mais inteligentes. E, quem diria, quem fez isso tudo vir à tona foi um homem. Bom que a partir daí as pessoas saibam que o feminismo não precisa ser só das ou para mulheres. Aliás, acho que Almodóvar só fez um filme destes pra deixar muito claro que o feminismo é uma autodefesa das mulheres contra as maldades que sofrem num mundo que homens pensam ser só seu. Mas foi também pra levantar um pouco o astral das espanholas que, mesmo num país dos mais ricos e poderosos que há, ainda tem um altíssimo nível de prostituição e de desigualdade salarial entre homens e mulheres. Se lá é assim, imagine se por aqui o feminismo é simplesmente desnecessário... Vai pensando... Vamos falando... |
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08/05/2008
Quando a Flávia Abreu do GNT me chamou pra fazer um blog eu gostei muito da idéia e, como um filho que precisa de nome, ou um livro que precisa de título, saí em busca de uma expressão que fosse a sua cara. PINKPUNK foi um nome tão forte, o próprio “nome da coisa” como diz a Mônica Waldvogel quando fala do Saia Justa, que eu simplesmente apaguei todos os anteriores. Idéia do Fernando Chui, meu marido, que, como músico, sempre está ocupado com ritmos e melodias, pela qual eu agradeço muito, PinkPunk parece uma batida, parece uma onomatopéia. Num primeiro momento eu relutei, achando que eu era bem mais Punk (embora não pareça) do que Pink (embora também não pareça), mas a combinação soou apropriada para os temas que eu poderia trazer hoje para um blog num canal como o GNT. E, como na verdade, um blog pode (quase) tudo em termos do como dizer, coisa que eu demorei a aprender, inclusive pra falar de filosofia e livros, que achei que valia a tarefa. Além disso, é claro que a melhor parte do blog, o motivo que dá a ele um gosto muito simpático, é esta possibilidade de trocar um pouco de idéias já que o mundo, sobretudo por causa da Internet, se abriu para isso. Além das idéias, há a troca das dicas desde um livro pra ler, até um filme para ver, com esta marca pessoal que ajuda a constituir um território para compartilhar interesses. Mas um blog me leva em primeiro lugar a pensar que quando sou “eu” que estou a dizer algo, seja uma idéia que tive, seja uma sugestão que quero fazer, sei que vou fazer amigos novos e esta é uma esperança que ainda vale a pena ter. Mas sei também que serei responsável pelo que vou dizer e que disso depende muitas coisas que são tanto pessoais, quanto coletivas, pois o blog é um espaço coletivo. Isto vale para quem escreve e para quem vier a comentar. Um blog me dá a sensação de companhia em torno de pensamentos, não para podermos concordar, mas pra poder conversar, e acho que isso é uma coisa boa que há neste tempo de internet. O que a vida dos blogs dá é este clima de democracia, de que todo mundo tem espaço, ou pelo menos pode ter ou buscar ter e cada vez mais, de que todo mundo pode se expressar e ser respeitado por isso e que, se quiser ficar também na sua, não será impedido por isto. Do contrário não há democracia nenhuma, é claro. Além disso, claro que eu espero que todo mundo se divirta ou faça boas descobertas, por isso sempre vou escrever como se estivesse enviando um e-mail para meus amigos, como se fosse uma carta para vocês. Queria agradecer muito à Joyce Fernandes que cuidou de tudo com muita delicadeza. Um abraço geral de começo de festa. Marcia |





Quando a Flávia Abreu do GNT me chamou pra fazer um blog eu gostei muito da idéia e, como um filho que precisa de nome, ou um livro que precisa de título, saí em busca de uma expressão que fosse a sua cara. PINKPUNK foi um nome tão forte, o próprio “nome da coisa” como diz a Mônica Waldvogel quando fala do Saia Justa, que eu simplesmente apaguei todos os anteriores. Idéia do Fernando Chui, meu marido, que, como músico, sempre está ocupado com ritmos e melodias, pela qual eu agradeço muito, PinkPunk parece uma batida, parece uma onomatopéia. Num primeiro momento eu relutei, achando que eu era bem mais Punk (embora não pareça) do que Pink (embora também não pareça), mas a combinação soou apropriada para os temas que eu poderia trazer hoje para um blog num canal como o GNT. E, como na verdade, um blog pode (quase) tudo em termos do como dizer, coisa que eu demorei a aprender, inclusive pra falar de filosofia e livros, que achei que valia a tarefa.